Tese do Tudo Sobre Nós

Textos:

Prólogo para a Tese do Tudo sobre Nós

 

Ainda não me preparei mentalmente para escrever… Tenho a caneta na mão, estou apenas preparado fisicamente.

Mas vamos directos à questão: o que é ser criativo. O que é ser criativo? E a loucura… O que é a loucura? A angústia é o que nos move? Será necessária uma angústia para nos movermos? O que é a dor mental?

Estará a resposta perdida no conceito ou o conceito na resposta? E porquê perdida e não achada…?

Para ser achada, descoberta, tem que haver uma procura… Um caminho. Afinal não é esta procura que nos move? A angústia do caminho desconhecido? Se já estivesse “achada”, porquê procurar?

É esta a mesma angústia que nos move para não procurarmos, para aceitarmos os dogmas. Aceitamo-los como verdade para acalmar o pensamento…

Então podemos aqui dizer que existem duas angústias, não uma. A angústia que nos leva a procurar e a angústia que nos leva a sossegar. As duas existem dentro de nós. No fundo dois sentidos, que em algum ponto se cruzam… Duas angústias movendo-se cada uma com a sua força. O seu sentido. Mas será que em algum ponto se tornam uma só?

Em O?

Na morte?

Na morte acaba a angústia. A morte é a nossa principal fonte de angústia. Porquê? O homem tendo consciência da morte, inventa mil e uma coisas para a negar e para negar a angústia que ela causa… A promessa do além dá-nos consolo. Acalma o pensamento, acalma a angústia desta perda radical.

Mas será que esta angústia é fonte de uma angústia só, ou das duas…? A morte é a fonte de ambas. Mas descendo o rio, partir-se-á em dois? Ou há outro rio? Uma outra fonte de angústia…

A líbido pode também ser uma fonte inata no sentido contrário da morte... Levando-nos à procura de nós próprios, do outro, dos outros…

Do outro em nós. De nós no outro... Trata-se aqui de um jogo projectivo. Daquilo que nós projectamos no outro, que vai transformar o outro e daquilo que o outro projecta em nós… Tal como o paradigma emergente, como nos diz Boaventura Sousa Santos, não existem experiências inócuas: o observador interfere sempre na coisa observada… E a coisa observada, interfere sempre no observador.

O discurso científico pode ou não ser criativo? Pode-se ou não escrever com criatividade?

Há aqui um erro. Porquê? A ideia de morte só surge por volta de um/dois anos… Logo a angústia existe antes da ideia da morte em nós. Talvez assim a líbido seja a fonte de tudo. Trabalhada com amor, a líbido dá a função epistemofílica que nos leva a querer conhecer e a crescer… Quando sujeita à pressão da inveja; a inveja de não possuir tudo, de não ter tudo, gera-se um sentido contrário na angústia... Será a angústia gerada na inveja que dá origem ao conceito de morte? A inveja suprema leva ao desejo de aniquilar o outro. A este conceito chamamos morte.

O pensamento heideggeriano, influenciado pelas ideias luteranas sobre a força da morte, leva a teorizar que o ser humano é um ser para a morte e que só se afirmando como um ser para a morte pode cuidar da vida. Não sendo nós luteranos, nem católicos para introduzir as ideias do pecado como fundador do pensamento, poderemos pensar que o ser humano é um ser para a vida. Para o conhecimento, para conhecer o outro, para estar com o outro, para ser/estar em grupo, para estar consigo próprio e, como ideia última, para ser quem é…

Ser quem é, através do conhecimento.

Ser quem é… Precisamos da angústia para ser quem somos ou a angústia distorce quem somos?

 

Paulo Pereira e Mariana Machado

 

 

 

Tese de tudo sobre nós: Diálogo(s) com a criatividade

Preparação para a entrevista

 

Cenário exterior, dia. Sentado na esplanada Coringa a comer um bolo de chocolate e a beber um café, olha para o pacote de açúcar. Por alguma razão aquelas pequenas frases sempre lhe pareceram de grande sabedoria… “Bom dia a quem tem o nariz empinado.” Pormenores dizem eles…pequenos rituais dizem outros…há preparação possível para falar com alguém como a criatividade??

 Nem todos os que escrevem são escritores…

De nariz arrebitado é sempre fácil opinar

Seguimos a intuição e escrevemos

Inspirados pelas musas ou seduzidos pela profundidade do duende

O que faz do texto a obra de um escritor?

A sua alma? A sua intuição? Ou o excesso de açúcar no sangue, depois de comer um grande brigadeiro?

Porque é que o escritor tem que ser uma alma perdida? Porquê tanta pergunta?

Que mania de nos interrogarmos pela vida, não basta ser?

Bolas… Mais uma pergunta?

Assim vou procurando as palavras, mas… Estarão as ideias à procura de escritor?

Nunca procurei pela rima, pela prosa… Nem mesmo pela poesia….

Palavras soltas que me prendem ao papel…

Para longe do que sou… Mas, pensando bem, para mais perto de mim.

Mas será isso sequer possível?

Fernando Pessoa perdeu-se.

Ou encontrou-se várias vezes…

Lisboa, o vento bate-me na cara e há uma réstia de sol a chamar por mim…

Escrevo para sair de mim ou é a escrita que faz de mim quem sou…?

Nem todos os que escrevem são escritores

Ponho a tampa na caneta, fecho o caderno e vou.

Escrevo, logo sou, logo existo.

E que comece a entrevista…a criatividade chama por mim

o jornalista pergunta: “quem é você?”

- eu sou a criatividade!

_ de onde vem?

- eu ando por aí (aos saltinhos) a tentar fazer umas coisas…. também tenho partes minhas que ficaram presas dentro do Homem e dos animais e das plantas).

- então está em todo o lado?

-estou mas nem todos me encontram...sinto-me muito sozinha!

_ não me diga que não tem criatividade para superar essa solidão?!

- Às vezes tenho…outras vezes não…perco muito tempo com isso…sabe, já há poucos Homens a deixarem-me fazer aquilo que eu quero, a deixarem-me trabalhar livremente.

- como assim? Os artistas não a deixam trabalhar?

- bom…aqui podemos dizer que há vários tipos de artistas. Sabe…isto está mau para todos…Há aqueles que confiam em mim e na minha prima intuição e me deixam criar, mas isso é muito difícil! A vaidade e o orgulho vêem sempre ao de cima e tentam sempre meter-se no meu trabalho. Depois há os outros artistas, aqueles que mais vendem e têm mais fama – vá se lá saber porquê…esses deixam-me totalmente de fora das suas obras…e o resultado?? Obras cada vez mais reles! Mas sabe… eu vivo em todo o lado, não me expresso só nos ditos artistas, estou em todos os Homens, também ajudo a fazer um bom cozinhado, por exemplo, gosto muito de ir para a cozinha e fazer misturas…a minha cozinha é uma desarrumação isso é verdade…mas é o espelho da criação. Gosto de fazer coisas que saibam à inteligência popular misturada com a minha acção…ficam fantásticas!! Modéstia à parte…sim porque eu sou muito modesto! Gosto de ir para o campo e ajudar os camponeses a semearem a terra e ajudar a terra a dar frutos…é uma das coisas que mais gosto! Aí às vezes tenho de inventar primaveras em pleno inverno…sabe que fui eu que inventei as noras, os poços, as picotas, as enxadas, os tractores…inventei-os para ajudar o Homem que coitado não tinha o que comer, andava sempre a comer ervas e minhocas...que chatice já viu…! Por isso também inventei o fogo e a caça…

- com tantos talentos e afinal está sempre sozinha?...

- veja lá… até tenho uns amigos que gostam de filmar umas coisas…e eu inventei-lhes o cinema para eles se expressarem e brincarem…

- então mas para quê que você serve realmente?

- bem, na minha opinião sirvo para que se possam exprimir sentimentos e emoções, quer nos Homens quer nos animais e nas plantas

- mas as plantas têm emoções?

- então não têm… quando abrem ao sol e libertam aquele cheiro maravilhoso… que emoção maior se pode ter se não ser a criadora desse cheiro…?

- Então mas essa emoção é das plantas ou foi você que inventou?

- Já reparou em todas as cores que as plantas têm? Porque é que uns gostam de rosas e outros não? Orquídeas, túlipas… Porque é que cada uma cria uma emoção diferente em cada um de nós? Essa emoção foi criada por si, ou por mim…? Redundante talvez, se é criada… Há sempre criatividade?

- Está me a perguntar a mim?!... porquê? Não sabe a resposta?

- está a ver…é o que eu digo…tantas coisas que andam por aí e o Homem não vê…

- e porquê que acha que isso acontece?

- sabe que eu tenho uma história muito antiga com uma amiga minha que me traiu…essa maldita censura! Esta luta pelo poder é terrível, toda a gente quer mandar no Homem

- e você?

- eu ? eu não quero mandar em ninguém! talvez por isso não tenha tanto poder como devia…porque não faço questão de lutar por ele…a mim satisfaz-me quando uma criança pega numa caneta e faz um desenho ou um Homem, sem saber no que vai dar, faz um poema…e um poema pode ser feito com várias coisas, pode ser feito com a escrita, pode ser feito na pedra, pode ser feito na tela e pode ser feito na música..

- como é que consegue escrever um poema na música??

- ah… para mim é fácil! Basta juntar notas como quem junta letras…e tcharam!! Começa a desenhar-se uma melodia por dentro das notas…

- suponho que tenha sido você também a criar os instrumentos musicais, já que criou todas as ferramentas…

- claro que sim (modéstia à parte!)

- e porquê que há tantos instrumentos musicais?

- sabe… a música é uma coisa que se pode fazer sem nada…basta atirar uma pedra contra a água e temos o principio de uma música ou assoprar para dentro de uma garrafa ou bater palmas…

- e acredita mesmo nisso?? O som é uma coisa e a música é outra… o que faz do som música?

- sim mas… sem som não há música!

- não há? O silêncio também é parte da música…

- é…claro que é! Mas fui eu que inventei também o silêncio porque o Homem faz muito barulho…e Às vezes é preciso silêncio para ouvir verdadeiramente as coisas, para ouvir a música que vem de dentro…

- a criatividade inventou tudo…até parece Deus!

- pois…se quisermos ver as coisas por esses prisma Deus pode ser meu pai e eu trabalhar para o louvar… mas se virmos por outro prisma eu posso ser a mãe de Deus…

- estamos então perante uma situação de quem nasceu primeiro…Deus ou a criatividade?

- sabe…eu acho que neste universo eu posso ser mãe e filha ao mesmo tempo… afinal o tempo também fui eu que inventei!

- mas que tempo sem ordem é este?

- sabe… eu gosto de trabalhar com os meus tios Cronos e Caos ao mesmo tempo…

- e isso conduz a quê??

- pode-nos levar à criação mais sublime e ao ruido mais extremo

- então está a dizer que também é geradora de ruido…

- sim… eu aprendi que o ruido também pode ser parte da música, tal como o silêncio

- estou a ver que é mesmo importante encontra-la! Mas como??

- eu vou aparecer dentro de si um dia destes…ou prefere que eu apareça num sonho?

- ca para nós…pode-me ajudar a ganhar o prémio nobel?

- realmente…a vossa ambição não tem limites! Não é ganhar prémios que importa…o que importa é a arte de criar…criar para que as coisas novas possas aparecer…criar para sermos mais e melhor….mas vá tentando…quem sabe se não ganha um dia…tenha fé naquilo que faz!

- mas eu não passo de um jornalista…

- pois…eu também não passo da criatividade e veja lá tudo o que eu já fiz!

 

Paulo Nuno Pereira, Mariana Machado, Rita Zacarias

 

 

 

Até à última

 

“Eu já nem lembro para onde é que vou, mas vou até ao fim; já saí da minha estrada onde eu estou, mas vou até ao fim” (Chico Buarque). Vou, sem rumo mas com destino. Não chego. Continuo? Páro? Sigo. Parto. E só partindo posso ficar, voltar onde nunca estive. Atravessar o deserto sem qualquer tipo de fé. Haverá lá fé maior do que o caminho?! Caminho parado em direcção a todos de quem eu gosto (“nem às paredes confesso”). Deixo-me levar, no vazio e na melancolia que são os meus antidepressivos. Quero ir, quero ficar. Quero ir para ficar. Quero ficar para ir. Pudesse parar o tempo e acabávamos com o dilema. A morte reinava. Tempo esse, o único remédio contra a morte. E pensar que passamos a vida a correr contra ele. Deixo o meu pensamento ir com o tempo. Pedaço de mim no futuro, no passado, no presente que não passa. Lanço sementes, palavras, gritos e silêncio - o silêncio tem um ritmo próprio. Queremos a fama, criamos poemas, cremos que escrevemos para o passado e ele há-de responder. Noites escuras onde vivemos, a luz mais clara e limpa, sem sombra de pecado – valha-me Deus! Ou o Diabo, quem sabe. Ou nenhum…Afinal cá estou eu. Sou o homem do leme e “navego por mares nunca antes navegados”. Vou sem rumo, mas encontro caminho. Faço o destino, meu ponto de chegada. Cada ponto de chegada novo ponto de partida. Movimento contínuo que é a vida. Parar é morrer já se ouve dizer. Morrer é sobreviver.

Quero de volta toda a luz dos vossos olhares, minhas deusas que coloquei num pedestal mas que perdi de mim. É meu? É vosso? É meu e vosso? Ou não é de ninguém? Perdeu-se no espaço/natureza. Natureza pintada em simultâneo por Rembrandt e Pollock e uma cerveja que nos bebe no inferno. Naquele tempo o espirito morava aqui. Sobreviver é viver sem espirito. Sobreviver é passar o tempo e nós fora dele. Vimos o tempo a passar na janela e uma parte de nós foi atrás dele. Encontrámos o caos de cócoras e cronos a ver se acertava o passo no tempo. Agora “ouvimos as cores dos nossos sonhos” (já diziam os Beatles), cheiramos a luz, degustamos uma sinfonia e tocamos no tempo. Entremos no delírio pela porta da realidade. Sentimos as crianças que há em nós a brincarem com a metafisica, a comerem um gelado e a beberem poemas ainda por escrever. E agora como sair? Mas porquê, está com pressa? Estou com medo! Com quem falo? No princípio era o verbo, responde-me um ouvido que por ali passava. O tempo urge. Temos de delirar mais e depressa. Vamos ficar curados? Ou vamos perder o resto da nossa sanidade? Qual resto? Já não nos resta sanidade nenhuma! Toco com o dedo no computador em busca daquela letra, toco o delírio mas ele escapa-me… - isso queria eu! Fujo dentro do delírio do próprio delírio. E deliro não crendo. Fujo.

Agora é que isto está a ficar giro, não queremos acabar!

(A vida ou o texto?).

Acordámos e fomos trabalhar. Mais um dia…

 

 

 

Tese de tudo sobre nós

O retrocesso cientifico-social

 

Nas nossas divagações pela literatura científica descobrimos e constatamos que no séc. XXI houve um retrocesso em relação aos finais dos anos 90 do séc. XX. Tal deu-se em vários sentidos, na divulgação da poesia enquanto expressão do pensamento – as livrarias deixaram de ter livros de poesia para ter livros de auto-ajuda e tarot, e livros onde predominam o pensamento mágico onde se pode salvar tudo e todos num abrir e fechar de olhos. Este pensamento mágico invadiu a própria medicina e a psicologia contemporânea na qual o importante é a cura imediata do sintoma e não o trabalhar das causas do problema, quer através da pílula mágica, quer através de terapias rápidas e instantâneas que incidem sobretudo sobre o comportamento (e não sobre o pensamento), assim como a sociedade busca o prazer instantâneo, por exemplo as drogas sintéticas são cada vez mais utilizadas e a alienação do pensamento invadiu as escolas, maximizando-se o trabalho da memória, e os próprios meios de comunicação, que através da transmissão de catástrofes e crimes continuadas nos passam a ideia de que somos sobreviventes e isso já não é mau. O medo ganha cada vez mais espaço nas nossas mentes e nas nossas vidas. Somos invadidos pelo medo do estranho, do novo e do que vem de fora, e fechamo-nos cada vez mais sobre nós. E ao fecharmo-nos fecha o pensamento...abrindo espaço ao surgimento e extremismos político-religiosos.

Na nossa busca de uma tese de tudo sobre nós chegámos até agora à união entre conhecimento, amor, conhecimento com amor, conhecimento no amor, amor ao conhecimento e o ato de fé como construtor do caminho; o perdão como a arma mais poderosa de todas, como dizia Nelson Mandela. Retomando as ideias místicas introduzidas na psicanálise por Bion, o silêncio une, a fala separa. Assim, temos a fórmula para que se dê uma mudança paradigmática e catastrófica nas palavras de Bion, que permite trabalhar directamente em O, isto é, conhecer toda a verdade e atingir a Verdade Última. Cremos que este processo não só entra em contacto com essa verdade última como é gerador de Os que se emanam para outros campos da mente reparando e transformando.

 

Paulo Nuno Pereira

 

 

 

Há uma possibilidade de Deus, Che e da Verdade Última em cada um de nós

Fórmula base:

 

A possibilidade de sermos geradores de O e de os emanarmos para outros locais da mente, do corpo e para fora de nós. O mesmo se passa com o sabotador interno. A luta entre os dois vai ditar a nossa vitória /derrota da parte que quer crescer ou decrescer da mente (que ataca o pensamento). Para isso é preciso preparar o aparelho de pensar pensamentos, escolher os pensamentos, e que os pensamentos nos escolham a nós, é preciso saber esperar os pensamentos em amor e com vontade de perdoar. Perdoar sobretudo a nós próprios e a Deus. Em psicoterapia é claro que muitas pessoas que se diziam ateias escondiam, no fundo, uma grande zanga com Deus. Aqui não podemos concordar com Nietzsche quando diz que o super-homem mata Deus, o homem novo deve abarcar Deus e a ideia de Deus como sendo uma possibilidade em si. Deus não está mas É. Partindo desta ideia há de facto uma possibilidade de contacto com Deus em cada um de nós, chame-se-lhe Deus, chame-se-lhe O, na teoria de Bion, chame-se-lhe Che, no poema de Manuel Alegre. Há sempre uma possibilidade de entrarmos em contacto com as coisas que emanam da realidade última, para Bion, de Deus para os crentes e de Che para os idealistas revolucionários. Assim, de facto, contra este poder que todos nós temos mas que nem sempre fazemos uso porque somos impedidos pelo sabotador interno que pode vir e actuar do interior e/ ou do exterior – pode ser uma parte introjectada do exterior mas pode também ser desenvolvido de dentro para fora. Exemplo de pessoas que têm o Sabotador interno muito forte podem “obrigar” o outro a ser sádico sobre ela, provocam o sadismo do outro para provar que é uma vítima. Como bem ilustra Fernando Pessoa em o “Caminho da Serpente”

“Todo homem, que tenha que talhar para si um caminho para o Alto, encontrará obstáculos incompreensíveis e constantes. Se não fossem mais que os obstáculos que se atravessam e estimulam, pelo perigo ou pela resistência directa, bem iria, e os próprios obstáculos seriam o clarim para o avanço. Mas encontrará outros — os obstáculos reles que vexam e vergam, os obstáculos suaves que adormecem e viciam, os obstáculos ternos que o farão, como Orpheu, volver o erro do olhar para o vedado Averno”.

Ou como diz Manuel Alegre no “Che”:

“Depois pode vir o exército a policia/as forças todas do número e da norma/podem cercar-nos por todos os lados/intimar-nos com o fogo/ou pior ainda: horários disciplinam regras/obrigações. (…)

É um poder que se tem. / Um terrível poder contagioso./ Por isso há tanta gente a policiar tanta gente./ Para que não aconteça o inesperado/ Para que ninguém resolva por exemplo/chegar a uma janela e gritar/ Eu sou o Che”

Imagine-se o que é uma pessoa chegar a uma janela e gritar eu sou o Che, eu sou Deus, eu sou a Verdade última. No mínimo chamavam logo uma ambulância para nos internarem, mas a verdade é que há uma possibilidade disso em nós.

Zaratustra foi mandado por Nietzsche para a montanha para fazer o corte com os sentidos e para se tornar sábio e aproximar-se da verdade última. S. João da Cruz fala das três noites que é necessário passar para encontrar a aurora e nela encontrar Deus. Manuel Alegre através da alquimia poética dá-nos uma solução para isto:

“ (…)Nem é preciso procurar além a serra/o lugar propicio/ inacessível/ A serra está em nós/ Começa em certas noites no nosso próprio quarto/irrompe subitamente sobre a mesa de trabalho/pode aparecer à esquina/em plena rua”. (…) A montanha está em nós.

É com este golpe poético que Alegre nos atira para dentro de nós como os místicos que procuram com o silêncio entrar em contacto com Deus, os que acreditam na teoria do Caos esperam coincidências “afastadas” e os sábios procuram libertar-se do conhecimento para que a verdade última emane sobre eles.

Para mim, de facto, há uma hipótese de Che, de Deus, do contacto com a realidade última dentro de nós, através da fórmula dos geradores de O : Entrar em O através do amor, do perdão, do acto de fé e do conhecimento (aparelho psíquico apto, através da intuição a captar as emanações de O). Podemos conseguir trabalhar em O, ou seja, trabalhar com a verdade e depois, fazendo uma analogia com a teoria dos alefes, que prova que existem infinitos maiores do que outros, e da teoria da fractalidade aplicada à mente humana (que depois explicaremos em maior detalhe), podemos ser geradores de O’s através do O maior e emanar outros O’s para a mente, para o corpo e para fora de nós. Esta teoria, parecendo um pouco bizarra, poderia conter a explicação científica para o poder da mente sobre o corpo, da mente sobre o mundo exterior (tal mecanismo feito através dos geradores de O alia-se ao amor, ao perdão, mas pelo contrário, através do sabotador interno alia-se ao ódio, ao orgulho, à pena de si próprio, entre outras coisas que o sabotador pode controlar). A minha “descoberta” pode ajudar até a nível da medicina pois sabe-se que a “fé move montanhas” e que as pessoas que têm fé em que se vão salvar têm uma maior probabilidade de realmente se salvarem do que as pessoas que não têm essa fé e se entregam à doença. Assim, aquilo que até aqui era “milagre”, obra do divino, do sobrenatural, etc., pode não passar do poder da mente a interferir connosco e com os outros. Se conseguirmos controlar o gerador de O’s e dirigir os O’s que postulo como essenciais ao combate de doenças como o cancro, ou doenças do foro mental/ psicológico, poderemos dar um passo e até estudar isso através das neurociências, e até encontrar o “local” desses geradores, se entendermos isto do ponto de vista simbólico/ objectivo. (continua…).

 

Paulo Nuno Pereira

 

 

 

"Pensamentos"

 

Pensamento assimétrico: eu sou filho do meu pai, eu não posso ser pai do meu pai; eu bebo um copo de água, mas o copo não me bebe a mim; eu leio um livro mas o livro não me lê a mim;

Pensamento simétrico; eu posso ser filho do meu pai e ser pai do meu pai ao mesmo tempo; eu posso beber um copo de água e o copo pode-me beber a mim; eu posso ler um livro e o livro pode-me ler a mim. Porque, segundo a teoria dos conjuntos, existirá um conjunto n dimensional em que eu e o meu pai fazemos parte do mesmo grupo (seres humanos),logo, podemos ser reversíveis.

Porquê que só conseguimos pensar a três dimensões no modo de pensar assimétrico?

Como é que sabemos que o pensamento simétrico/inconsciente funciona a n dimensões? Qual a relação entre as dimensões do pensamento e a simetria ou assimetria?

Como é que o pensamento simétrico funciona?

Fará sentido pensar em n dimensões? O pensamento simétrico existe livremente?

O que surge primeiro, o pensamento simétrico ou assimétrico? Por um lado, o pensamento simétrico é primordial (existe primeiro) e só através do recalcamento surge o pensamento assimétrico; por outro lado, podemos também pensar que surge primeiro o pensamento assimétrico e, mais uma vez, só por força do recalcamento é que surge o pensamento simétrico. E porquê que estamos a centrar tudo no recalcamento? Será que antes do recalcamento existem ambos, simétrico e assimétrico coexistem pacificamente e colaboram entre si? Será isto um O original? (Estamos a ficar loucos? Talvez…). Será então o recalcamento que vai separar simétrico e assimétrico, tornando só possível à consciência pensar assimetricamente? Porquê que a consciência não consegue pensar simetricamente?

O que será então o pensar? E como podemos pensar sobre o pensar? Como surge o pensamento? A realidade precisa do Homem para pensar pensamentos. Ou isto não passa de mais uma arrogância humana? Será que os outros animais conseguem pensar mais e melhor que nós? Pelo menos não vivem aterrorizados com a ideia de morte como nós? E não foram por isso criar n explicações e a inventar n deuses e demónios sobre aquilo que não conheciam? Os animais, as plantas, as estrelas e os átomos, tudo o que é infinitamente grande ou infinitamente pequeno, as galáxias ou as moléculas pensam? São unidades pensantes? Ou o pensamento é só uma forma que o Homem tem para lidar com a dor? Qual dor? Para tentar organizar-se no caos, e dar um sentido a tudo isto?

 

Dr. Paulo Nuno Pereira e Rita Zacarias

Pensamentos Soltos:

Um psicólogo e um poeta têm a mesma ferramenta ,
Vivem da força e do poder da palavra,
Fazem da metáfora a semente que lançam á terra fecunda dos pensamentos,
Dao cores , cheiros ,olhares , mares, marés ,sonhos ,chuva ,vinho ,pai
 Aos sentidos e adubam o sol com palavras-musica.
O som ,silencio em movimento ,gestos parados no tempo 
Golos que nos marcam (,) (n)a vida 
Somos sobreviventes das palavras e nas palavras 
Caminhamos letra a letra ao mesmo tempo entre a matemática pura 
E a metáfora mais selvagem e louca que perdeu o sentido em algum canto da vida .
Somos agua ,rios nascem de nós e sobem ,chuvas caem no ceu do meu riso e espanto
Tragam as metralhadoras ,as granadas e as violas 
Urge cantar contra quem nos rouba a vida 
Tirando-nos silaba a silaba do mar alto do pensar 
Cuidado , atras de ti w á tua frente raptam metáforas ao pensamento.
E até há psicólogos que acham uma perda de tempo ler 
E uma heresia quem se atreva a escrever um poema….
Solto sonhos e flores nestes dias tristes 
Em que fingimos a liberdade presos no pensamento ,atados no grito e acorrentados ao medo. 

 

Paulo Nuno Pereira P.S. dedico este poema ao Rui e ao Nuno

 

 

 

Uma gaivota, um arco, uma saudade que vai nascer 
Mistério de mistério, sombra da sombra, luz desta luz 
O mistério da luz na sombra 
A sombra do mistério na luz A luz do mistério à sombra 
Cidade que queres voar Gaivota desse teu olhar 
Lisboa que quer partir mas não aguentaria viver sem o seu rio e sem esta luz

Paulo Pereira

 

A solidão escancarada 
Um grito cheio de silêncios 
Olhem para mim 
Ainda existo 
Corto os braços ,rasgo o corpo , estripo o coraçao 
Vivo ,sobrevivo a mim mesmo 
Estou rodeado de gente ,tenho 3 computadores ,5 iphones , tenho explicadores ,treinadores de quase tudo e um psicólogo …..mas ainda acho que ninguém repara em mim ….ninguém me conhece , ninguém sabe o que gosto ,o que quero fazer ou ser ……….os professores se souberem o meu nome já não é mau ,não falam connosco … há um desinteresse instalado ……….os amigos falam de jogos de computador e futebol ,,,,as amigas falam de roupas e potenciais engates ,os meus pais não falam nada ….metem a cassete que já sei de cor …….como correu a escola e que notas tive …o psicólogo confundiu-me com os testes aos quais respondi ao calhas e com a teoria de um senhor qualquer .
Hoje vou fazer o ultimo nível de um jogo chamado baleia azul.
Adeus.

Paulo Nuno Pereira

 

 

 

Tinha 20 anos 
Tinha sonhos 
Queria mudar este mundo 
Víamos o fausto no coliseu cheio como nunca mais 
O veloso, trovante, o godinho
Nesses dias fui com o meu pai a Setúbal e cantámos meia hora, duas horas não sei ao certo 
Lembro-me que caia uma chuva miudinha e nós 2 a cantarmos baixinho, nós os 2 a cantarmos baixinho uma musica que tinha o poder de nos por a chorar para dentro ……afinal havia mais uns quantos a cantar connosco…também havia umas flores que eram atiradas para cima de uma caixa de pinho (não o posso jurar mas se fosse como na canção devia ser pinho)….era a liberdade que ali ia e pressentíamos uma noite escura que viria a tomar conta de tudo...
Pai ainda canto contigo baixinho aquela música
Ironicamente, sabes pai, a seguir a umas coisas que disseram do Zeca entrevistaram a noite escura ….é assim a noite comeu tudo e pouco deixou…..e os filhos da noite julgam que o céu é esta luz que nos ofusca a visão …..
Olha o fado - não queremos ser heróis

 

Paulo Pereira

 

 

 

Poema a 5 – Ensaio para o nascimento da rádio Lapsis

Começando por falar sobre o tempo, reflectir sobre o tempo,
Mas sem tempo de estar e sem tempo de ser,
Tempo, tempo, tempo, és um dos Deuses mais lindos,
Deuses terrenos, deuses sem céu, 
O tempo anda à procura de nós e nós à procura dele,
Tic, tac, tic, tac, o relógio entoa dentro de mim,
E se um dia for possível viajar no tempo,
Onde queres ir?
Tic, Tac, Tic, Tac o relógio marca as horas
Mas a vida tem tempo próprio,
A uma viagem dentro de mim fora do tempo e do espaço,
Numa corrida contra o relógio.
Corro e vou tirando os ponteiros, tiro o grande tiro o pequeno,
Tic, tic, tic, tiro o dos segundos também,
É isto, ficar sem tempo no próprio tempo.
Não chamem o relojoeiro, quero ficar assim,
Sem coelho, só com o chapeleiro,
Eu fico com a Alice.
Dentro ou fora do Espelho
Eis a questão.
E agora? 
Perdemos o tempo e temos todo o tempo do mundo.
Mas, assim não haverá hora do chá ou será sempre uma hora interminável,
Nunca nada é interminável….
Fim da história!

 

Maestrina: Paleta Silvestre; Soprano: Maria Pereira; Saxofone Tenor: Mariana; Violino: Rita; Piano: Paulo Pereira

 

 

 

 

Nesta vida desvairada ser feliz é coisa pouca 
(frase retirada de um fado de Amália)

A nossa vida está cada vez mais cheia de nós de ar e entrelaçada por ramos de nada. A cada dia levantamo-nos para uma nova escalada, uma nova subida, um novo ramo por descobrir e deitamo-nos a fumar um cigarro imaginário, a ouvir aquela música escrita por Deus e a subir à torre mais alta. Inebriados pelo fumo ou pelo sonho da torre, alheios à subida ou às quedas. No desvaneio do que será, fica para trás o que podia ser. O que podíamos ser… O que podíamos ter sido… O que fizemos e o que não fizemos, tudo isto dói no coração anestesiado que não grita, mas ainda sussurra “Aproveita o dia…”. 
De novo, surge a manhã. A voz que no sonho, num sussurro, nos falava sobre o momento, se abafa e se consome. É preciso darmos voz ao dia e à noite, para que o dia brilhe e a noite cante. Urge voltar a estar com os amigos. Urge cantarmos a nossa música interna e soltarmos o nosso grito. O grito pessoal e intransmissível, que só os amigos conseguem ouvir. Assim levanta-te! Volta-te para uma nova hora e um momento infinito, que os sonhos e a torre estarão lá amanhã. “Levanta-te e anda”, disse Cristo. “Levanta-te e anda”, digo eu a todos vós que vos enfiaste num qualquer Second Life ou num qualquer Dead Man Walking sobre os zombies a tentar voltar à vida e a vida corre-nos ao lado como um rio onde não podemos molhar o pé. 
Nunca nada está terminado. Um segundo bater para os vivos e um novo caminho para aqueles dos mortos que permanecem em pé. Nunca nada está terminado sobretudo para o artista, a sua arte fica para nos perturbar e nos interrogar “Quem és?” e “O que fazes aqui?”. Assim Dom Quixote ainda imagina, Dulcineias lindíssimas sobre o seu Rocinante ou as nossas guerras, as nossas estúpidas guerras internas e externas, expostas por Picasso naquela aldeia espanhola ou… Mas pergunto ainda se o tormento é para aquele de nós que observa ou para aquele que cria? É para aquele que observa e vê e quer ver. É para aquele que cria e sonha. E é também para quem nem sequer observa mas que ainda está vivo, porque é má educação pensar essas coisas. 
Num novo dia, ficamos assim perdidos no momento, na realidade deste novo mundo. Perdidos entre o que de nós flui e o que de fora nos atravessa. Assim seja, um novo dia, um novo momento e uma nova realidade. Numa noite passada que ainda não veio, bebemos os sonhos em copos de amor e sexo. Encontramo-nos perdidos e felizes nesse sonho chamado amizade. Que sejam as noites todas em que bebemos as estrelas e suamos ao vento frio e quente, de um inverno de verão chamado juventude. Inventámos tantos mundos e habitámos tantos sonhos que não queremos, nem podemos, lembrar (é o peso da realidade). 
Entre o passado que poderia ser e o futuro que poderá, brindemos amigos. O dia de ontem já foi… O que está para vir a esse sucede… Assim como a manhã passa e a noite nos espera, fiquemos pela tarde, ardendo na luz que nasce. Entre o sonho do futuro inventamos passados que não passámos, manhãs que não passaram de uma breve aurora, sonhos em que a noite se esqueceu de aparecer.

 

Paulo Nuno Pereira e Mariana Machado

 

 

 

O luto, a saudade e a luta

O luto é uma luta por continuarmos a viver 
Lembram-se da velha lição da árvore ?
Se as folhas caducas não caírem a arvore dificilmente resistirá ao inverno com as suas chuvas, neve, vento…..podem partir os ramos e os troncos ,mas a meu ver, pior que isto é imaginar que a árvore chega até à primavera e as folhas novas não podem nascer porque estão lá ainda as folhas decrepitas que não caíram a seu tempo.
Quantas folhas velhas guardamos em nós?
Quantas primaveras não entraram na nossa vida à conta disto?
A saudade é um luto, é um luto ,uma afeição 
A ausência tem uma filha 
Que se chama saudade
(Popular açoriano)
O luto é uma luta com a saudade ,
A saudade tenta manter sempre presente aquilo que passou 
Passou e não passou –ficou dentro 
As saudades são da ordem das coisas perfeitas, imutáveis , inatingíveis 
Tentam manter o poder que conseguiram no nosso espaço mental 
E tudo vale para manter o poder – que importa se deixamos de viver ou amar? 
A tirania da saudade rodeia-se de dogmas e guardiões de um templo supostamente sagrado .
A saudade manipula até o próprio pensamento e através deste a vontade da própria pessoa .
É esta saudade que juntamente com o orgulho dão uma noção falsa de resistência e sobrevivência à pessoa e que está na origem da depressão. Com 17 anos descrevi o orgulho como uma bóia à qual nos agarramos mas que aparece no fundo do mar e não nos faz vir à tona.
Quando conseguimos fazer as pessoas pensar sobre os seres ou coisas reais ou imaginarias (eu diria que o real não existe sem a porção de imaginário que nós colocámos no outro ) que desapareceram ,nos deixaram ,abandonaram ,conseguimos perceber o quão idolatrado estava o objecto de amor que perderam, e que isso afinal não é assim tao verdadeiro .
O objecto de amor idolatrado , afinal também tem falhas ,cometeu erros ,fez coisas mal feitas.
Por dentro da pessoa deprimida a saudade e o orgulho constroem um cenário onde o que partiu é perfeito e por isso é extremamente ingrato e cruel a comparação para os novos candidatos a serem amados uma vez que a pessoa deprimida é obrigada sempre a fazer comparações com a perfeição que supostamente é o outro que partiu .
O trabalho psicoterapêutico realizado muitas vezes por amigos , padres ou outros ( estou-me a lembrar do trabalho importantíssimo feito pelos homens dos bares que se tornavam verdadeiros confidentes) têm implícito um reduzir da altura do pedestal depressivo e um consequente aumento da importância dada ao que é novo.
Uma dúvida: será que fazendo o luto de3, 5, 10, 20 anos em que as primaveras ficaram á porta da nossa mente, elas poderão ainda entrar?
Eu tenho para mim que se começarem a entrar uma a uma, a seu tempo, já ganhamos a luta contra a depressão ,a saudade e o orgulho.
É então fundamental escutarmos a lição da árvore:
É essencial deixar cair, fazer morrer ou mesmo matar as folhas que agarramos por dentro de nós, como a bóia, o orgulho, a saudade ou a depressão, para que a primavera entre em nós com seus ninhos onde o pensamento cresce ,os seus raios de sol derretem todo o gelo em que nos queríamos conservar e faz-nos voltar a sentir a cascata da vida a correr dentro de nós . E que saudades nós já tínhamos da vida.

 

Paulo Nuno Pereira